sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

COMENTANDO MINHAS LEITURAS EM CORDEL: O PAVÃO MISTERIOSO

1923 foi o ano em que surgiu pela primeira vez a bela história romanceada "O Pavão Misterioso", um dos maiores clássicos do cordel  brasileiro, que tem como autor José Camelo de Melo Resende. Já se vão 94 anos da sua primeira publicação, Aderaldo Luciano escreve: "é uma obra da literatura brasileira com mais de 50 reedições e novas edições, com pouco trânsito nas escolas e menos ainda entre os estudiosos e críticos literários e veículos especializados. Como a arte na qual se inscreve (o cordel brasileiro)". Quantas pessoas realmente conhecem esse texto? Muitos ouviram falar sobre ele,  mas quem chegou a folhear e com os olhos acompanhar o altaneiro Evangelista em busca da sua amada Creusa? Não vou entrar em detalhes sobre o que trata o cordel.  Quem quiser saber mais  leia o artigo de Aderaldo Luciano no link abaixo Anotações sobre o Pavão Misterioso
Minha resenha literária, meu deslumbramento enquanto leitor vai se voltar para algumas peculiaridades que encontrei ao longo das 142 estrofes em  sextilha que compõem o poema.  "O Pavão Misterioso" deve ser apresentado ao público infantil ou juvenil, em partes, nunca de uma vez só. Essa tática vai permitir ao professor ou mediador de leitura, despertar nos leitores a curiosidade da próxima etapa. Sugiro então que se faça assim:
1ª parte: do início até a estrofe 36 - que termina com Evangelista se despindo do irmão João Batista e seguindo para a Grécia.
2ª parte: da estrofe 37, quando Evangelista chega a Grécia até a estrofe 63 - quando se dá o recebimento das mercadorias do engenheiro Edmundo a Evangelista.
3ª parte: da estrofe 64 até a 124 - neste espaço acontece o ápice da história. É a mais interessante e cativante do poema.
4ª parte: da estrofe 125 até o final.
Quando proponho essa divisão, tenho em mente que entre a leitura de uma etapa a outra, pode e deve o professor ou mediador de leitura, intercalar  a pesquisa sobre o espaço geográfico na qual acontece a história. Exemplos:
Evangelista , João Batista, Creusa  são verdadeiramente nomes populares da civilização turca?
Turcos tem alguma relação com o cristianismo para adotar tais nomes?
Os irmãos moravam no país Turquia e na cidade de Meca. Conforme relato poético do texto. É possível isso?
Quantas visitas Evangelista fez a Creusa?
Que tipo de comportamento  e relacionamento social há nessa história?
É bom lembrar que o poeta só tem compromisso com a poesia, por isso, dentro da sua licença poética, não há fronteiras, tudo lhe é permito na construção da imagem.
Por fim, quero dizer que "O Pavão Misterioso" continua voando  sobre nossas cabeças,  pousando em telhados e trazendo a coragem de Evangelista que adentra em nossos lares no afã de conquistar o que temos de mais precioso.


Referências

https://jornalggn.com.br/blog/aderaldo-luciano/anotacoes-sobre-o-pavao-misterioso-classico-da-poesia-brasileira. Visualizada em 15 Dez 2017.
RESENDE. José Camelo de Melo. O Pavão Misterioso. São Paulo: Luzeiro, 2013, 32 p.

19 PARES DE FRANÇA DERAM VITÓRIA A CLAUDER ARCANJO NA ANRL

Foi na tarde de ontem, 14 de dezembro de 2017, na sede da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, que aconteceu a eleição para o novo ocupante da cadeira 12, que tem como patrono Amaro Cavalcante. O primeiro ocupante dessa cadeira foi Juvenal Lamartine e na sequência vieram Veríssimo de Melo, Oswaldo Lamartine e por último Paulo Balá.
Amaro Cavalcante -  o patrono
 Dois candidatos participaram do pleito,  Fernando Antonio Bezerra e Clauder Arcanjo. A  a vitória foi dada a Clauder Arcanjo, por 19x15. Como se vê foi uma pugna das mais célebres dos últimos tempos dentro da ANRL. Há quem diga que grande parte da conquista de Clauder Arcanjo se deva ao Dom Quixote das letras potiguares, o Acadêmico Manoel Onofre Jr, que não mediu esforços fazendo a campanha. Assumindo o papel do Imperador Carlos Magno e indo em busca de recrutar os Pares de França para a grande batalha.  Manoel Onofre não conseguiu 12, mas sim 19 Pares de França. O certo é que ganhamos todos, pois a chegada de Clauder Arcanjo à ANRL  é de um valor imponderável. Parabéns a ele, a ANRL e a nós, que somos apaixonados por livros e literários.

Clauder Arcanjo - o eleito



Clauder Arcanjo venceu
Na Academia entrou
A luta foi bem travada
Mas vitória conquistou
Graças ao anjo Onofre
Que com ele batalhou.

Mané Beradeiro

MINIJARDINS É O NOVO LIVRO DE GLAUCIA LIMA

Se você procura uma atividade que lhe proporcione alegria, paz e seja ao mesmo tempo uma fonte de terapia, você deve conhecer o livro MINIJARDINS que vai ser lançado brevemente pela escritora Glaucia Lima, em Natal. Confira, agende-se e vá ao evento, seus dias hão de ser bem melhores. Creia!

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

UM BARÃO


Ontem alguém conversando comigo disse:
-Sério, você é homem?
- Sim
- Mas como assim? Em pleno século 21 você não optou em ser gay,  transsexual, bissexual. Nossa! Como você é cafona.
Não preciso nem dizer que fiquei estupefato.  Um jovem em corpo de homem, vestido de mulher, indagava se eu não estava infeliz sendo simplesmente homem.
Fiquei ali pensando na primeira vez que paguei a uma prostituta. Os tempos eram outros, 1982, eu tinha apenas 18 anos e nunca meus olhos haviam focados um corpo feminino. Tudo que sabia vinha das imagens de calendário de bolsos, estampas de espelhos redondos e quando podia, algumas revistas. Precisa encarar o corpo feminino. Era chegada a hora! Meus hormônios pediam, ou melhor gritavam dentro de mim. Meu pai tinha me dado a mesada, uma nota de um  barão (Aquela do Barão Rio Branco) Lembra-se? À noite eu fui para a zona, rua cheia de mulheres. Nervoso, impaciente, sem a mínima experiência. Um jovem virgem. Foi quando se aproximou aquela mulher e fez a proposta. Perguntei qual o valor. Ele disse ser um barão.  Fomos para o quarto. Ela ficou nua, eu sequer conseguia me mover, estático! Contemplava o corpo da mulher.
- Não vai ficar nu?
- Não.
-Por quê?
- Não quero.
-Mas você pagou. Venha!
Fiz um sinal negativo com a cabeça e as mãos.
Agradeci e disse que ela podia se vestir. Tinha saciado minha curiosidade, estava satisfeito com o quê vi. Ela não compreendeu e chegou a perguntar:
-Você é gay?
Respondi:
- Não, sou seminarista. Abri a mochila e mostrei a túnica branca e alva como era minha alma.
Ao sair do quarto ela agradeceu e disse:
-Foi o dinheiro mais fácil da minha vida.

Francisco Martins

PALESTRA SOBRE BULLING


UM ENCONTRO COM ADERALDO LUCIANO NA ESTAÇÃO DO CORDEL

Imperdível esse evento que acontece hoje na Estação do Cordel. Agende-se!  Um momento igual a esse não é como bolacha que em todo canto se acha.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

UMA BIBLIOTECA VIVA NUM VALE DE ENGENHOS FANTASMAS

Uma biblioteca não é apenas um lugar para guardar livros, sua função  e objetivo vão muito mais além. Na vizinha cidade de Ceará-Mirim, a Biblioteca Municipal Dr José Pacheco Dantas tem sido um lugar santuário da literatura e das artes,  e isso é fruto do trabalho em equipe, que é capitaneada pelo Professor Gerinaldo Moura,  pessoas envolvidas com a causa, que com vigor não medem esforços na semeadura da leitura e contemplação do belo. Que haja mais bibliotecas espalhadas e abertas no Rio Grande do Norte. Parabéns aos que fazem a Biblioteca Dr Pacheco Dantas, um lugar especial  e muito importante na minha vida. 

LEITURINO NA IGREJA AD DO PLANALTO

Num local repleto de aconchego, onde é possível sentir a presença de Deus e o seu amor, juntaram várias crianças e o Palhaço Leiturino, na Assembleia de Deus, bairro do Planalto, em Natal, na noite desta terça-feira, 12 de dezembro. Entre ações lúdicas e evangelizadoras o palhaço falou aos pequeninos sobre o quanto elas são amadas pelo Pai Eterno.









sábado, 9 de dezembro de 2017

AS HORAS DO NORDESTINO



"As horas tinham outros nomes"

Câmara Cascudo

Uma hora da madrugada ..... primeiro canto do galo
Duas horas da madrugada .....segundo cantar do galo
Três horas ........madrugada
Quatro horas .....madrugadinha ou amiudar do galo
Cinco horas....quebrar da barra
Seis horas....sol fora
Sete horas ....uma braça de sol
Oito horas.....sol alto
Nove horas....hora do almoço
Dez horas....almoço tarde
Onze horas....perto do meio-dia
Doze horas.....pino ou pingo do meio -dia
Treze horas....pender do sol
Catorze horas....viração da tarde
Quinze horas ....tarde cedo
Dezesseis horas....tardinha
Dezessete horas....roda do sol para se por
Dezoito horas ....por do sol ou ao sol se por
Dezenove horas.... aos cafus
Vinte horas....boca da noite
Vinte e uma horas....tarde da noite
Vinte e duas horas ....hora da visagem. Noite velha
Vinte e três horas....perto da meia-noite. Frio, o frião da noite
Vinte e quatro horas ....meia-noite

Referência

CASCUDO. Luis da Câmara.  Tradições populares da pecuária nordestina. 1ª edição. Rio de Janeiro: Ministério da Agricultura,  1956. 90 páginas



terça-feira, 5 de dezembro de 2017

OS PSEUDÔNIMOS DE HENRIQUE CASTRICIANO


José Capitulino, Mário do Vale, Alex, César, J.Cláudio, José Brás, Rosa Romariz, Frederico de Menezes, "Y", Erasmus Van der Does foram alguns dos pseudônimos usados por um poeta, jornalista e cronista do Rio Grande do Norte. Ele nasceu em 1874 e faleceu em 1947. De quem estamos tratando? Do grande Henrique Castriciano.
Henrique e seu irmão Eloy de Souza

sábado, 2 de dezembro de 2017

A PROEZA DA GRAVATA


Eu preciso conhecer
O autor desta pintura
Que com grande maestria
Engrandeceu a figura
De homem tão varonil
E de imensa  cultura

É mister levar o quadro
Que com certeza terá
Dentro do Museu do Louvre
Muitos fãs a admirar
A proeza da gravata
Em pescoço singular.

Mané Beradeiro
02 dezembro 2017


COMENTANDO MINHAS LEITURAS: VIAGEM AO UNIVERSO ...

Livro: Viagem ao universo de Câmara Cascudo
Autor: Américo de Oliveira Costa
Gênero: Ensaio
Editora: Fundação José Augusto- Natal-RN - 1969
Leitura: 30 de novembro a 2 de dezembro 2017.

O crítico literário Américo de Oliveira Costa (1910 - 1996) tentou e conseguiu  trazer ao leitor um ensaio biobliográfico de primeira grandeza sobre as obras produzidas pelo seu amigo Câmara Cascudo. Editado em 1969, o livro continua sendo indispensável àqueles que querem entrar no mundo cascudiano, no universo por ele criado, pesquisado, estudado. Diria, sem medo de errar, que Américo de Oliveira Costa construiu com esse livro uma ponte extremamente necessária a todo leitor que deseja  abreviar sua chegada às obras de Câmara Cascudo. Não podia ser diferente, nem esperar outra coisa de um homem que teve como companheiro das horas, os livros da sua brilhante biblioteca. Américo esmiúça os livros escritos por seu amigo e vai nos entregando, provocando no leitor o desejo de ler também todas as obras ali estudadas. "Viagem ao universo de Câmara Cascudo" - indispensável a todo brasileiro que gosta de livros e queira conhecer o que escreveu Câmara Cascudo até o ano de 1968.

O MELHOR DO BRASIL POR CÂMARA CASCUDO


Acontece hoje, a partir das 17 h, na Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, o lançamento da Coleção Verão 2018 - pela AIRE - uma marca de roupa infantil. O evento de lançamento da coleção promete um acontecimento com grandes emoções.  O ambiente está muito bem ornamentado, pronto para receber os convidados. A AIRE chamou minha atenção, quando passei na Afonso Pena e fui surpreendido com uma vitrine onde os manequins dividiam seu espaço com livros e máquinas de datilografia.  É muito bom ver marcas comerciais tomando partido no mundo cultural, principalmente na literatura.



sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

LEITURINO NO CMEI LUCIA MARIA DOS SANTOS

O Palhaço Leiturino, personagem vivido por Francisco Martins, esteve hoje, pela manhã e à tarde, com as crianças do CMEI-Professora Lúcia Maria dos Santos, em Nova Parnamirim, levando suas histórias, seus bonecos e a sua ludicidade aos pequeninos e adultos.  Foi encantador.







DO LOCAL ONDE NASCEU RODOLFO GARCIA

Escrevi um artigo para a revista da ACLA, a ser publicado, com o título: Rodolfo Garcia – um ícone que serviu as letras e o Brasil. Nele cito o local do nascimento desse grande homem, o Engenho do Meio. Procurei saber de algumas pessoas, através das redes sociais, se podiam me dizer o local onde era esse Engenho do Meio, nada consegui. Até que na semana passada, fazendo pesquisas em jornais antigos, deparei-me com a resposta de Câmara Cascudo.
Cascudo escreveu durante alguns anos vários artigos numa coluna que ele chamava Acta diurna. Nela tratava dos mais variados assuntos e em algumas, o pesquisador respondia às perguntas que lhe eram enviadas. Na Acta diurna que tem como título “Respondendo”, escreve:

“Rodolfo Garcia, Diretor da Biblioteca Nacional, membro da Academia Brasileira de Letras, é do Rio Grande do Norte. Nasceu no Vale do Ceará-Mirim, no Engenho do Meio, já desaparecido. Ficava entre São Francisco e o Purão. O nome oficial era São José e pertencia ao Dr. Braz Carrilho, avô materno de Rodolfo Garcia” (CASCUDO, 1940)
Agora a informação está completa, graças a minha curiosidade e principalmente a Câmara Cascudo.

Francisco Martins
18 de dezembro 2016

Referência:
CASCUDO, Câmara. Jornal A República, in: Acta diurna - Respondendo. Natal/RN, 11 de outubro 1940.

Nota: texto originalmente publicado na página da ACLA, disponível em: https://www.facebook.com/profile.php?id=100008452352746. Visualizada em 29 nov 2017.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

ESCOLA COSTA E SILVA CELEBRA O LIVRO COM SEUS AUTORES

A Escola Municipal Presidente Costa e Silva reúne vários escritores na tarde de hoje, celebrando o livro e a literatura.  

COMO ERA VERDE AQUELE VALE



A rua S. José era a única rua calçada e varava toda a encosta do alto ocupado pela cidade. E por ela transitavam, indo e vindo, longas e lentas enfieiras de burros jumentos, as cangalhas barrigudas sustendo duas ancoretas de cada lado. Assim se abastecia a população. Água do “olheiro”, como se dizia da fonte copiosa, lá em baixo, perto da Estação da Estrada de Ferro. Era meio salobra e quem podia mandava vir água fria, do engenho “Diamante”, para beber.
No alto, a rua São José desembocava no largo do Mercado. Aí estava todo o Comércio. Casas que reuniam simultaneamente lojas de tecidos, ferragens, comestíveis, sapataria. Ao centro o Mercado majestoso, em torno do qual se atravancava, em dia de feira, uma multidão de sacos de farinha, de milho, de feijão, além de garajaus de voador, caçuás de tainhas sal-presas, balaios de tapiocas e beijus, cestos de cajus, cestos de mangabas, cestos de massarandubas, molhos de cana, pencas de urupemas e de chapéus de carnaúba, louça de barro, mantas de carne seca, galinhas, leitões, cabritos, passarinhos e gente.
Para cima do largo do Mercado começava o Patú, bairro pobre, de ruas esburacadas e tortas, com uns nomes pitorescos: rua do Vintém, Rabo da Cachorra, rua do Arame...
Do alto do Patú os olhos se derramavam no pelo verde dos canaviais sem tamanho, donde emergiam, salteadas, chaminés esguias, perfiladas como sentinelas fantásticas naquela imensidão. É verdade que muitas não desprendiam mais os grossos rolos de fumaça do bagaço queimando para cozinhar as tachas. O mato subia por elas, tinham a borda irregular como boca desdentada. Mas a gente, de longe, não percebia isso e elas se mostravam tão belas quanto as outras...
Eu gostava de ir reconhecendo cada Engenho pelo seu boeiro: Carnaubal, S. Francisco, Ilha Bela, Diamante, Guaporé, Cruzeiro, Capela, Laranjeiras, Guanabara, União, Torre, Oiteiro, Mucuripe, Emburana, Bica.
Quantas vezes estive neles e me abismei nas suas máquinas chiadoras de banguês... Aspirava o cheiro bom do mel virando rapadura. Comia torrões de açúcar bruto. Bebia caldo de cana apanhado com uma cuia no paiol. Chupava cana, descascando com os dentes. Embrenhava-me nos partidos úmidos espiando o corte. Mas o meu supremo encanto eram os engenhos em que a cana para moagem se transportava em pequenos vagões sobre trilhos. Desprezava os em que este serviço fosse feito em carros-de-bois ou em cambitos, em lombo de burro.
Lembrança forte que me ficou também pendurada nos olhos de menino foi a dos carros dos senhores de engenho. Quase todos eram de um tipo comum e se chamavam troles. Corriam puxados por uma parelha de cavalos com guisos tilintando nos arreios, tinham dois bancos com assento de palhinha, eram completamente abertos e descobertos, de modo que as senhoras andavam neles protegidas por guarda-sóis. O engenho “S. Francisco” destacava-se por ter um verdadeiro carro: preto, todo fechado, assentos estofados, cortinas nas portinholas e o lugar dobolieiro na frente, bem alto.
Também vi surgirem os primeiros automóveis, depreciados e negados pelos que não podiam tê-los... Eram, de fato, veículos exóticos, quase temidos, espantando com o seu ronco as pobres estradas somente acostumadas à cantiga fanhosa dos carros-de-bois ou sacolejar nervoso dos guisos dos troles...
Mas o orgulho maior da cidade estava na sua igreja. Tinha sido construída no tempo da escravatura as pedras carregadas em cabeça de gente, escravos mandados para isso, brancos piedosos fazendo-o por devoção ou penitência, cordões humanos num trabalho penoso e paciente, como de formigas.
O templo cresceu, tornou-se o maior do estado, as torres as mais altas. Delas ao que se diz, se avista o mar a não sei quantas léguas. São duas, de pontas muito agudas, encimadas por um galo.
Também a um filho do Ceará-Mirim ninguém dissesse que sua igreja não é a maior do estado, as torres as mais altas, os sinos os mais sonoros, os altares os mais bonitos, os santos os mais milagrosos...
Que tristeza intensa e funda a que senti ao voltar em visita ao vale do Ceará-Mirim.
Os antigos engenhos, cheirosos e pitorescos, encontrei-os paralisados, sob o advento das Usinas. Suas edificações, sem serventia, se mostravam a caminho da ruína. O mato nascia na boca das chaminés outrora orgulhosamente fumegantes.
Muitos já estavam despojados das moendas e das caldeiras, vendidas como ferro velho...
As duas usinas, São Francisco e Ilha Bela, é que engolem e trituram, praticamente, toda a cana produzida no vale afamado.

Mas não foi daí que veio principalmente minha tristeza imensa e funda ao voltar do vale do Ceará-Mirim. O que me acabrunhou, o que me sucumbiu foi o que vi no “Guaporé”. Guardava dele imagem antiga, do tempo em que já não havia o engenho em atividade, mas havia a casa-grande, rica, nobre, diante da qual se desdobrava maravilhoso jardim. Parecia aos meus olhos infantis coisa de contos de fadas. Comparava-o também a certos postais de terras remotas. E ainda agora recordo-lhe o recorte caprichoso dos canteiros floridos, os mármores ricos, os azulejos coloridos, as fontes frescas, os recantos misteriosos... Sensação de beleza e de nobreza era a que me davam a casa e o jardim do “Guaporé”.
O que fui encontrar, porém, numa visita anos adiante, foi o mato recobrindo o que era outrora o jardim e, lá ao fundo, já no limite do canavial, uns melancólicos restos de paredes, mas dolorosamente melancólicos quando a gente descobre neles alguns antigos e belos azulejos que ainda resistem.
Quanto à casa-grande, tornara-se uma cabeça-de-porco. Em cada peça imunda, esburacada, vivia uma família de trabalhadores braçais da Usina, entre trapos pendurados, baús e redes enroladas. Pela calçada que protegia a casa em volta, outrora guarnecida de gradis de ferro, transitavam lagartixas em assustados passeios entre uma fenda e outra.
Ponho-me a pensar nos móveis antigos que ali conheci, nos quadros, nos candeeiros, em tudo que ainda existia, quando visitava o “Guaporé” muito criança, porém atento e deslumbrado...
Está certo, vieram outros tempos e com eles a Usina poderosa, cujos senhores não precisam de casa-grande, pois são representados por “escritórios” em algum andar de edifício no Recife, no Rio...
Tudo isso decorre do estilo de uma nova idade, mas também, que diabo, não era preciso degradar a casa-grande do Guaporé, mesmo que não mais precisassem dela...
Essas impressões datam de janeiro de 1959. Por Deus que, depois delas, o Guaporé veio a ser lembrado e até considerado para efeito de tombamento e restauração, como de fato ocorreu.

Nota: 
Texto de Umberto Peregrino, extraído do livro Crônica de uma cidade chamada Natal, editado em Natal/RN, pela Clima, em 1989, p.76-79.
Obtido através de pesquisa realizada pelo Acadêmico Francisco Martins

Disponível em:  https://www.facebook.com/profile.php?id=100008452352746. Visualizado em 29 novembro 2017

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

PARAUPABA: UM DESAFIO AOS HISTORIADORES POTIGUARES


Muita coisa boa foi dita sobre Ceará Mirim referente ao tempo passado. Escreveram sobre fatos e pessoas. Artigos que nos fizeram reviver épocas maravilhosas. Darei também minha contribuição aos 150 anos desta cidade, mas o que escrevi fui buscar num tempo que está muito mais aquém do ano de 1858.
Convido os leitores a formularem comigo, em suas mentes, a imagem destas terras, no século XVI. Sei que será difícil, mas vamos tentar. Não existia nenhuma cidade, nenhuma estrada. Os caminhos eram totalmente veredas, e nelas caminhavam índios, portugueses, holandeses.
Entre estes índios, havia um que batizado à fé católica, recebeu o nome de Antônio Paraupaba. Grave bem este nome. Filho de Antônio Gaspar Paraupaba, da tribo Potiguara, que vivia nestas terras onde hoje é Ceará Mirim, o índio tornou-se amigo dos holandeses e fez história.
Aprendeu a ler e escrever, destacando-se entre os principais mediadores entre holandeses e índios no Brasil. Em 1625 atravessou o Atlântico, juntamente com seu pai e outros onze indígenas rumo a Holanda.
Foi designado por Maurício de Nassau, Governador Geral, para acompanhar juntamente com ele uma delegação brasiliana, na Holanda, onde participou de uma audiência com os senhores dirigentes da Companhia das Índias Ocidentais. E para eles falou na língua flamenga.
Antônio Paraupaba garantiu com sua luta a liberdade dos índios e assegurou alguns privilégios para os brasilianos, incluindo o estabelecimento de câmaras de escabinos (vereadores) nas aldeias e a criação do cargo de regedor.
Foi destaque na mobilização de guerreiros indígenas durante a “Guerra dos Bárbaros” também conhecida como “Guerra de Açu”, que durou mais de cinquenta anos.
Diversas vezes viajou para os Países Baixos, mas em 1654 foi pela última vez para a Holanda, quando redigiu dois memoriais para os Estados Gerais. Desta forma, Antônio Paraupaba, índio, é sem sombra de dúvida, na pré-história da cidade de Ceará Mirim, o nosso primeiro escritor, e o que é melhor, com obras publicadas na Holanda.
Faleceu em 1656 sem ter recebidos respostas às suas reivindicações. Seus manuscritos foram publicados em forma de panfletos pela Editora Hondius, em Haia, Holanda.
Hoje, Paraupaba é nome de um grupo de estudos da questão indígena no Rio Grande do Norte, criado em 2005, formado por professores, pesquisadores e estudantes da UFRN (Museu Câmara Cascudo e Departamento de Antropologia).
Eis aí então um nome que Ceará Mirim deve não esquecer: Antônio Paraupaba. Onde morou? Onde ficava sua aldeia? Que mais poderemos saber dele? São perguntas que talvez não recebam respostas, mas diante da infância de 150 anos de uma cidade, é motivo de alegria saber que um filho genuíno desta terra fez tanto pelo seu povo.

Francisco Martins

Nota: texto originalmente publicado na página da ACLA, disponivel em:  https://www.facebook.com/profile.php?id=100008452352746. Visualizada em 29 novembro 2017.

NA CASA DE CASCUDO

Fui à Casa de Cascudo
Buscar mais sabedoria
Trancaram-me lá num quarto
Não senti nem agonia
Pois a mente ocupada
Num livro se expandia

Mané Beradeiro
29 novembro 2017

ASSIM DISSERAM ELES ..



"Só o que se faz com amor se faz bem"

Sthendal