segunda-feira, 10 de julho de 2017

INAH BEZERRA - UM DIAMANTE QUE A VIDA BURILOU


Francisco Martins e Inah Bezerra
Inah Bezerra, quem foi essa mulher? Uma pergunta intrigante que guarda muitas respostas. Diria que foi uma memorialista escondida entre as folhas das suas anotações, fotógrafa nas horas vagas, poeta na existência, leitora de bom gosto,  dedicada mãe, uma eremita que viveu entre nós e poucos tiveram o privilégio de conhecê-la. Inah Bezerra foi um diamante que veio ao mundo em 22 de agosto de 1920 e a vida a burilou ao longo de 89 anos e 11 meses.  Nasceu em Carnaúbas dos Bezerra (Parelhas-RN) e despediu-se da terra em julho de 2010.  Tive a graça de conhecê-la, quando Nina Bezerra me levou para uma tarde cultural no apartamento em que ela vivia. Foi inesquecível, cheia de encanto. Inah Bezerra permitiu que eu visse seus cadernos de anotações, tudo organizado com muito carinho e cheio de histórias, escritas por aquelas mãos octagenárias.

Nina Bezerra
Hoje, quando estamos no mês da partida de Inah Bezerra, começamos a registrar a sua marca na literatura, através da pesquisa que está fazendo a sua filha Nina Bezerra, que de forma incansável tem buscado recuperar tudo que a mãe escreveu. Breve poderemos enriquecer a literatura do Rio Grande do Norte, com uma obra inédita, que está sendo organizada por mim e pela própria filha e que terá o selo da Editora Carolina Cartonera. Em vida, Inah Bezerra chegou a publicar um pequeno livro: "Caderno de Pano" que em 2011 teve sua segunda edição. Sobre isso leia meu comentário no link: Caderno de Pano. 
Mas, gostaria de compartilhar com o leitor, a prosa poética de Inah Bezerra, escrita em forma de carta. Leia-a, e depois não esqueça de ver as considerações que eu faço sobre o aludido texto.

Enfim, o inverno trazendo novas esperanças

1984

Amiga Lucrécia

Desejo que esta carta encontre você com Boa Saúde. Fiz uma ótima viagem e aqui estou nesta bela e limpa cidade do Acari, que talvez por sua proximidade com o açude Gargalheiras é indiscutivelmente o Jardim do Seridó. Sua população é ordeira e pacata, aqui não existe  Pendências de modo que pouco se registra algum tipo de queixa na delegacia do Tenente  Ananias onde estou trabalhando.
O inverno por aqui já começou como que entrando por uma Portalegre, fazendo com a Pureza de sua Água Nova que todo o Tabuleiro Grande que é o nosso sertão se transforme numa extensa Baixa Verde cercada pelas Serra da Borborema.
É gratificante observar a satisfação das pessoas, também pudera, mais um ano de estiagem seria uma Nova Cruz para elas que já se encontravam quase tão descrentes como São Tomé.  Aqui as festas folclóricas são animadíssimas, valendo salientar um número que consiste de um vaqueiro pegar Parelhas  com Touros, criados em Currais Novos construídos com toros de Angicos, árvore abundante na região.
O artesanato é riquíssimo, as esteiras de Junco e os Pilões feitos de Pedra Preta, são verdadeiras obras de arte. 
Eu tencionava passar minhas férias por aqui para apreciar as festas de Santo Antonio, São João e São Pedro, as fogueiras queimando no alto da Serra da Rajada, o que deve  ser uma bonita visão panorâmica, um Encanto para os olhos. Mas a Passagem já está comprada, e mesmo já estou sentindo saudade da lua cheia prateando a folhagem dos Coqueiros e a Areia Branca de nossa querida Baía Formosa. 
Breve estarei por aí.
Um abraço do amigo
Martins.

PS: Como este Rio Grande do Norte é imenso!  Sinto-me tão distante! É como se estivesse perto da linha do Equador.
( O mesmo)
Considerações: Como é notório, publiquei em negrito os nomes dos lugares que Inah Bezerra, nesta carta fictícia, faz menção a toponímia do Rio Grande do Norte. Dos 167 municípios do estado, a escritora trouxe 28 para o texto, além de 4 distritos:  Gargalheiras,  Serra da Rajada, Junco e Coqueiros, encaixando de forma prazerosa na construção da missiva.

Eis um pouco da criatividade da mulher especial que foi Inah Bezerra.
Referências:
Foto de Nina Bezerra:  Postagem no facebook de Ninocha Potiguara, dia 27 de agosto de 2016.
Carta  - caderno de anotações, poemas e memórias de Inah Bezerra. 

Francisco Martins
10 de julho de 2017